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Sabe quando você simplesmente olha pra uma pessoa numa foto ou na TV e passa a amá-la e admirá-la da maneira mais sincera possível? Mesmo sem nunca contar com possibilidade de conhecê-la um dia? Pois é, foi assim que comecei a gostar da pessoa maravilhosa que foi Zilda Arns Neumann, a Dra. Zilda, fundadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa.
Eu tenho essas coisas de me deparar com algum velhinho ou velhinha em qualquer lugar e meio que tomá-lo como avô ou avó.
Não lembro exatamente quantos anos eu tinha, mas quando vi a Dra. Zilda na TV pela primeira vez, fiz a mesma coisa. Sentia-me como se ela fosse alguém muito próximo, uma pessoa muito boa pra mim.
Bastava vê-la e eu abria o maior sorriso.
Ontem quando cheguei em casa e minha irmã falou que ela foi uma das vítimas fatais do terremoto no Haiti… Putz! Posso parecer extremamente idiota aos olhos de muitos, mas a verdade é que eu chorei horrores.
De fato nunca fui beneficiada por qualquer de suas ações. Graças a Deus, tive uma vida muito boa em relação a aspectos financeiros. Mas ainda assim, posso dizer que, de alguma maneira, naquele momento eu me sentia meio órfã.
Sei lá… sem um pedacinho tão bom de mim.
Cresci amando de verdade, admirando e respeitando não somente a grande pediatra e sanitarista que ela foi, mas principalmente a Zilda Arns ser humano. Alguém que foi capaz de mudar a realidade milhões de pessoas com uma idéia, a princípio, tão pequena. Alguém que sem sombra de dúvida amava a vida, sobretudo a do próximo. Foi com e por amor que ela levou a muitos o direito de viver, ter esperança e dignidade.
Tudo isso sem nenhuma distinção. Fosse ela de raça, cor, religião, sexo, etc. E não se tratava apenas de levar saúde, bem-estar e educação às famílias. Era fazer isso da maneira mais responsável, calorosa e doce possível.
E se eu me senti sua perda dessa maneira, o que diriam as mães, crianças, famílias e comunidades inteiras que tiveram suas vidas transformas graças à ela?
Se hoje o Brasil apresenta taxas cada vez menores de mortalidade infantil, foi graças ao seu trabalho, amor e incansável dedicação.
Formando grupos de voluntários, compartilhando conhecimentos e orientando-os. Foi assim que tudo começou muito bem em Londrina-Paraná, em 1983. Neste município 127 crianças morriam a cada 1000 nascidas vivas. Após um longo ano de trabalho esse número foi diminuído incrivelmente para 28 criaças a cada 1000 nascidas. Por conta desse sucesso no cuidado das crianças e massiva orientação às mães e reponsáveis, outras regiões do Brasil puderam se beneficiar da mesma maneira. Hoje, a cada 1000 crianças nascidas, 22 morrem no nosso país. E em áreas onde atua a Pastoral da Criança, esse número cai para 11. Pode parecer pouco, mas se você lembrar que antes disso tudo os números eram assustadoramente maiores, saberá o valor que ela tem para cada uma das famílias que deixaram de perder uma criança, graças ao soro caseiro, orientação quanto ao aleitamento materno e a criação de suas multimisturas. Hoje, milhões de pessoas podem dizer que literalmente devem a vida à ela.
Se alguém ainda me perguntar o porquê de eu gostar tanto de alguém que nunca conheci e que diretamente nada fez por mim, eu digo apenas uma coisa: eu via nela algo infelizmente não comum à muitas pessoas, o amor. Um amor simples, incondicional e inteiramente contagiante!
Zilda Arns, ao 75 anos, deixou cerca de 1,8 milhões de órfãos espalhados por 4066 municípios brasileiros. E certamente está lá no céu junto de todas aquelas criancinhas que infelizmente se foram antes que ela pudesse as ajudar.
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